Exposição e Conversas Bordadas no Espaço Cultural Casa do Lago

A tristeza se converteu em alegria para a arte-educadora Thereza Barreto, funcionária da Coordenaroria de Assuntos Comunitários (CAC) da Unicamp. A explicação está no emaranhado de linhas de crochê, tricô e bordado que viraram arte. Ao tecê-los um dia, veio a ideia de começar um projeto na Unicamp envolvendo esses elementos. Deu certo e, como resultado, foi aberta nesta segunda-feira (15) a primeira Exposição e Conversas Bordadas da Universidade no Espaço Cultural Casa do Lago, que prossegue até o dia 26 deste mês.

Na verdade, este trabalho é fruto do projeto de oficinas motivacionais, que iniciou em 2013. Thereza trabalhava numa unidade da Unicamp na qual atuava basicamente com planilhas e números. Não via sentido nessa atividade para as suas aspirações. Mudou de área. Foi trabalhar na CAC. “Quando cheguei lá, tinha muitos projetos em andamento, como o de coleta e seleção do lixo (os recicláveis) e a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCPs). Todos eles já tinham um caminho. Procurei o meu. Tudo começou com um projeto em que eu já atuava à noite – o projeto Vida e Motivação”, contou. Por conta dele, foi fazer uma disciplina no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp com o professor Jonas Romualdo. “Ele me achou uma pessoa alegre e sugeriu que trabalhasse com o discurso da depressão, pois poderia trazer uma luz a essa pesquisa, no sentido de pensá-la como uma epidemia”, relatou.

Pesquisou muitos textos, descobriu muita gente triste, muita tarja preta e muita solidão, chamada depressão. “Participava das aulas e não achava o fio condutor do trabalho. Um belo dia, descobri. Percebi que fazer tricô me dava felicidade. Então aliei ao tricô pesquisa e passei a ouvir depoimentos de pessoas que tentaram até o suicídio. Além de levar um bate-papo e poder fazer a minha pesquisa, eu levava agulhas de tricô e lhes ensinava”, informou.

Thereza aprendeu a bordar aos dez anos com sua mãe em Cruzeiro do Oeste, no Paraná. Aprendeu crochê no convento e tricô com uma amiga (Neli Babini), com quem morou em Campinas, por indicação do padre Haroldo. “Hoje para mim o tricô tem ponta de asa, de libertação. Eu estava me libertando e dentro do convento. As pessoas que viram o trabalho o admiraram. Fiz muitos cachecóis num período de intenso frio”, salientou.

Sua mãe entrou em depressão com a morte da avó. Como ela sabia fazer umas flores de fuxico, a filha lhe pedia para fazer sacos deles a fim de esconder sua dor. Chegou uma hora que não sabia mais o que fazer com tanto saco de flor. Teve então a ideia de aplicar os fuxicos nas suas roupas.

Não tardaram os primeiros pedidos. “O projeto se tornou conhecido e com essas fagulhas de história chegou à CAC, onde recebeu grande apoio do órgão e da Preac”, afirmou Thereza. “O projeto cresceu muito e já foi mostrado em dez Estados do país. Tenho convite para ir a outros oito estados e para os Estados Unidos, Chile, Paraguai e Portugal”, comentou. Um dos pontos altos do projeto é a oficina da bola da felicidade, onde a arte-educadora ensina 12 pontos de bordado. Enquanto isso, as pessoas contam suas histórias de vida, as quais foram publicadas no livro Milagres Bordados, que será lançado nesta segunda-feira. Leia mais.

“Duzentas e seis comunidades de Campinas e de outras cidades foram alcançadas através das oficinas. São hoje nove projetos e, no próximo dia 28, começaremos um novo projeto com o Departamento de Plástico do Colégio Técnico da Unicamp (Cotuca). Devemos alcançar cerca de dois mil alunos. Estou muito empolgada”, revelou Tereza.

Atualmente, seus projetos estão no Hospital de Clínicas (HC), nas áreas de Pediatria, Nefrologia e Hospital Dia. “O Hospital Dia é o mais querido dos nossos projetos, pois é onde trabalhamos o lado mais sofrido da história, que é como conviver com a Aids e a precariedade financeira”, frisou.

O professor João Frederico Meyer, pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários (Preac), esteve no evento e enfatizou que essa iniciativa começou pequena, cresceu e se tornou muito grande, não no tamanho físico, mas na importância que tem na vida das pessoas. “Uma coisa muito importante aqui, e que tem a ver com a extensão, é que o bordado não é meramente um bordado. Envolve pesquisa, cultura, história e o tratamento a uma comunidade que necessita de atenção e valorização”, ressaltou.

Na programação dessa primeira Exposição e Conversas Bordadas da Unicamp, haverá três workshops e três palestras, rodas de conversa, desfile de saias bordadas (uma proposta de empreendedorismo com o bordado) e o lançamento do livro. Há eventos programados para essa semana, realizados nas dependências da Casa do Lago e também na sala de expressões artísticas com linhas e agulhas no Centro de Convenções da Universidade.

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